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Por Bárbara Mello

 

Difícil falar de Maria Aliano sem falar da Velha Guarda do Salgueiro ou contar a história da Academia do Samba. Compositora, fundadora da Velha Guarda Musical e presidente do segmento que reúne os baluartes da história da vermelha e branca há 12 anos, Caboclinha viu o Salgueiro nascer.
Prima de Buzunga, amiga de infância de Mestre Louro e filha de Birolha – fundador da Bateria Furiosa e amigo de Djalma Sabiá, nossa personagem da semana começou compondo marchinhas de Carnaval no colégio interno, aos 11 anos. Divertida e reconhecida por sua força e fibra, Caboclinha é símbolo de empoderamento desde muito jovem. Viu, aos 14 anos, o Salgueiro nascer após a junção da ‘Depois eu digo’ (também conhecida como Azul e Branco) com a ‘Verde e Branco’ e conta que, o vermelho do pavilhão da Academia, surgiu para não desagradar as duas agremiações pré-existentes.
“O branco já existia nas duas e o vermelho não existia em nenhuma delas, então, para retratar o novo tempo e não desagradar as duas, ficou o vermelho. O Salgueiro já chegou fazendo jus ao lema: ‘nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”, explica.
Seu primeiro desfile foi como abre-alas corporal da escola e logo recebeu o título de rainha, conforme conta.
“Naquela época não havia carros alegóricos então, a comunidade é que abria os desfiles. Eu e minha irmã (Mocinha, falecida recentemente), fomos escolhidas pelo presidente da época, o Mané Macaco, para a função, e a gente fez foi sucesso. Desfilamos de minissaia, com as pernas de fora”, diz ela frisando que naquela época era “rebolado e bastão na mão”.
Caboclinha passou por diversos segmentos do Salgueiro. Foi Harmonia, Baiana, rainha das Baianas, ala dos compositores, até chegar à Velha Guarda. Em 1980, sob a batuta de Jorge Cardoso, fundou, junto com Mocinha, a Velha Guarda Musical da escola.
“O Jorge me convidou para fazer um teste. Me pediu para compor um samba-enredo sobre o Rio de Janeiro, somente acompanhando a batida da bateria. Eu topei e fiz. Ele gostou muito e dali em diante começamos o trabalho. No início só havia duas mulheres no grupo, eu e Mocinha, aí, a gente usava os ternos dos homens para as apresentações. Com o passar dos anos, chegaram outras mulheres, mas a gente seguiu no estilo por conta da elegância do linho e do charme do paletó”, relata.
A formação inicial do grupo contava com as participações ilustres das Tias Zezé e Neném, Geraldo e Zedi. Em 2003, com uma nova formação, o grupo lançou um CD em comemoração aos 50 anos da Academia do Samba e, em 2004, concorreu ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Samba/Pagode.
“Perdemos apenas para a Família Caymmi!”, recorda a fundadora.
À frente da Velha Guarda há 12 anos, Caboclinha garante que é uma emoção muito grande desempenhar a coordenação da ala. Ao longo deste período, a galeria, que guarda a história da escola, conquistou inúmeros prêmios. Sem muito mistério, ela revela que tudo parte da organização, zelo e amor pela ala.
“Estou aqui desde pequena, passar por todos os segmentos e chegar à presidência da Velha Guarda é muito emocionante! E eu sou muito cuidadosa, sou muito vaidosa com a ala, gosto de organização, gosto de tudo muito certinho!”, garante. “Hoje eu tô aqui, fechando o meu currículo, botando pra derreter!”, se diverte.
Motivando as outras participantes da Velha Guarda a se cuidarem e serem vaidosas, Caboclinha não abre mão da elegância de todos os integrantes.
“A Velha Guarda tem que ter chapéu, tem que andar no linho, tem que estar bonita, cheirosa, vaidosa! Não precisa ser coisa cara, porque o pano pode ser barato, mas o feitio pode ser lindo!” e insiste, “‘bora’, bota o chapéu! Vai ficar linda! Mostra o que o Salgueiro tem!”
Entre as melhores recordações da sambista, o campeonato de 1993 chama a atenção. Com a quadra lotada e sem querer perder a comemoração pelo título, ela revela que cometeu, literalmente, uma loucura para conseguir entrar na quadra e comemorar a vitória.
“Desfilei de almirante, toda de branco, linda e maravilhosa! Eu não ia ficar de fora, né?! Tive que subir no poste para pular para o estacionamento da quadra! Subi com a ajuda de um colega e caí por cima dos outros! Não quis saber, não ia perder a festa!”, conta aos risos.
Sem esconder que o Salgueiro é sua maior paixão, a baluarte da escola ainda se derrete de amores quando fala da escola do coração.
“Salgueiro é minha vida! Aqui criei minhas filhas, meus netos, vivi momentos muito felizes, fiz muitas viagens… Hoje, só tenho do que me orgulhar da minha escola, da minha família, da nossa história! Eu passei minha mocidade toda aqui, fiz tudo por essa escola aqui, vai dizer que minha vida não é o Salgueiro? Até minha filha, que deveria nascer em fevereiro, me ajudou nascendo em dezembro. Deixei ela com minha sogra e fui rapidinho desfilar”, diverte-se.
Por todo esse amor e dedicação é que somos gratos. Caboclinha é dessas pessoas que fazem a diferença dentro da família Salgueirense.

Foto: Alex Nunes


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