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Escola mirim lançou enredo no último sábado com a presença dos filhos do homenageado

Mais um enredo cultural e que visa preservar a história vitoriosa dos 70 anos do Salgueiro, vai ilustrar o desfile dos Aprendizes no Carnaval 2023. Presidida por Mara Rosa, a escola mirim homenageará ninguém menos do que mestre Louro, um dos principais ícones da escola mãe, e lendário mestre de bateria.

“ Nós temos muito orgulho em poder homenagear figuras que fazem parte da história do Salgueiro pois, aqui no Aprendizes a gente tem o objetivo de perpetuar esse legado. As nossas crianças precisam saber quem são as pessoas que construíram a nossa escola e que ajudaram a fazer com que ela se tornasse o que é hoje”, comenta a presidente, que orgulha-se em dizer que é fruto do projeto social da vermelha e branca.

Desenvolvido pelos carnavalescos Victor Brito e Lucas Abelha, o enredo contará a trajetória de Lourival Serra, cuja historia com o Salgueiro durou 31 anos. Nascido no Morro que dá nome à escola e irmão de Almir Guineto, Mestre Louro é, até hoje, um dos mestres de bateria mais conceituados e respeitados do Carnaval.

Lançado no último sábado durante o ensaio que definiu os sambas finalistas para o enredo “Delírios de um Paraíso Vermelho”, o enredo dos Aprendizes contou com parte do elenco da escola mirim, e também com a presença de Silvio e Sheila Serra, herdeiros do grande homenageado.

“É muito emocionante ver que a história do meu pai será contada pelas nossas crianças. Tenho certeza de que ele, de onde estiver, está feliz com essa e tantas homenagens que o Salgueiro sempre faz a ele. Isto é sinal do reconhecimento e da valorização do mor que ele sempre teve por essa escola, e que passou pra gente dede pequeno”, contou Silvio.

Confira a sinopse e a logomarca do enredo:

Salve o Mestre do Salgueiro!

Olhando para o céu quadriculado vermelho e branco, caminho lentamente sobre o escudo de pandeiro, surdo, ganzá e tamborim quadrado, contemplando a beleza desse grande tesouro.

Aos poucos, vou resgatando as mais belas memórias de minha vida. Vida que bem vivi e quero te mostrar, para que a chama que arde em meu peito não se apague.

“O pensamento voa
Olhando o entardecer
Se existe uma coisa boa
É ter saudade de você”

Envolto pelo aroma de café que percorria todo o Rio de Janeiro, entre cores vibrantes de chita, nasci pertinho do céu.

No castelo de Seu Ioiô, que compõe o colorido cenário visto do asfalto, direto para os braços de Dona Fia.

Como cada o moleque real, de cabelos encaracolados, olhos repuxados e lábios grossos, sou da mais pura nata tijucana.

A sandália de couro veste o pé que corre de um lado para o outro no campo de futebol de terra no Terreiro Grande.

Lembro de voltar da escola brincando de pique-esconde entre os becos, e de olhar para cima e ver os papagaios erguidos por outros moleques que vão me acompanhar no vôlei sobre as cordas dos varais mais tarde. Lembro de sentir o barro pisado entre os dedos enquanto disputamos nossas bolinhas de gude.

E no cheirinho gostoso de feira, da deliciosa festa a céu aberto, colorido por bandeirinhas de alguma festa antiga, as biroscas abrem as portas e as tendinhas são postas. Se uns disputam para ver quem grita mais alto, outros sobem escadarias com sacos e caixas nos ombros que vinham do pé do Morro.

Pausa para assistir de perto, com meus fiéis escudeiros, Chiquinho e Almir, as moças que sobem a pedreira equilibrando latas d’agua na cabeça.

Água que escorre ladeira abaixo, levando embora o suor da armadura que vestia para varrer o chão, da Mauá até a Tijuca.

Ao som do caxambu, na Folia de Reis ou nas festas da cumeeira. Nos pontos de jongo e repentes de congada, até ter idade para vestir camisas de seda e sapato de bico fino para bailar no Clube Dominó, cresci com várias trilhas sonoras embalando minha história.

Cenário de inspiração para versos que entoam do nascer ao pôr do sol, contando o amor traído, chorando pra santo ou reclamando da vida. Chamando a mulata de passagem para sambar. A música corre no sangue dessa linhagem real.

Do fraseado, acompanhado pelos acordes do violão ou do floreado da harmônica, um chorinho de um acadêmico do Salgueiro alegrava a madrugada. Entre os poetas e professores que começaram essa jornada, meu pai lá estava.

Homens e mulheres, guerreiros que rasgam os dedos e quebram a cabeça para fazer pulsar no coração de cada salgueirense a emoção de despontar por trás de uma igreja, numa manhã de céu laranja, como um só corpo.

Por confetes pisados desfilei, desde pequeno, ouvindo o som do apito que regia a batucada. “Entre eles, o meu lugar”, sonhava.

À frente cheguei, e dali não mais saí. O apito, agora sob o meu comando, guiando cada um dos meus irmãos.

De Pilares à São Gonçalo, de cima a baixo do morro, todos ouviram nossa trovoada, para saudar onde nasci e fui criado.

O mar vermelho e branco que tinge o asfalto e faz vibrar corações é movido pelo ritmo furioso da bateria que tem a minha marca, a minha identidade.

“Ai como dói
Ver o tempo correr
Um amor é difícil esquecer
Sou capaz até de enlouquecer”

Mas se lá do final da General Roca pra cima, indo pra Saenz Peña, ou até subindo pela Rua dos Araújos me avistar, indo à tenda do seu Neca minha gente encontrar, saiba que estarei rumando para o meu lar.

A passos lentos, pois o coração moleque não mais acompanha o compasso do meu corpo.

Salgueiro… ah, Salgueiro…seu menino ordena que jamais deixe essa chama se apagar. E mantenha nos olhos de seus filhos o brilho no olhar.

E depois de uma viagem tão apaixonante e intensa, que durou cinquenta e oito anos, sigo com meu apito e minha batuta.

Minhas crianças, na descida do Morro, preparam a garganta para bradar o orgulho de ser salgueirense.

Carnavalescos: Victor Brito e Lucas Abelha
Texto: Victor Brito, Lucas Abelha e Christian Costa

Os ensaios dos Aprendizes acontecem sempre aos domingos, com exceção do segundo domingo de cada mês, às 17h, na quadra do Salgueiro ( Rua Silva Teles, 104- Andaraí)


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